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Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Reportagem Milhões de Festa 2010

Milhões de Festa. Uma aventura em Barcelos que teimou em chegar tarde a Portugal. E eu não teimei, mas também cheguei tarde após ter perdido 2 comboios importantes que me fizeram esperar no total mais 3h para chegar ao local do acampamento e do evento. Que vontade tinha de meter os pés num sitio destes. Aqui sim, sinto-me em casa. Rodeado de pessoas que cumprem apenas mais uma jornada pelo amor à boa música que se faz tanto em Portugal como no estrangeiro.

Dia 1: Chegados então os compinchas a Barcelos, vamos então até à entrada do recinto para a consagração que é receber a pulseira de 3 dias deste mega-festival que existe em Portugal. Só após isto é que demos entrada no Parque de Campismo e obviamente só com tudo pronto é que tivemos a oportunidade de ir dar uma trinca num pedaço de céu - piscina do Milhões de Festa. Perdi logo Tren Go! Soundsystem, BEARS e Rudolfo. Trazia muita curiosidade para ver este último que se auto-intitula mestre do hatecore ou de como alguém já o rotulou de pimbacore. O que interessa é ter "core" e um género restritivo que associado a este core soe a qualquer coisa weirdo. Mas a vaga de concertos perdidos só tinha começado agora... Assim que chegámos ao pedaço de céu que era a piscina do Milhões de Festa em jeito de California Private Pool Party que nesta altura contava com alguns 300 convidados a dar mergulhos e a ouvir Claiana e Move The Crowd. Claiana era aceitável, agora Move The Crowd já conhecia e acreditem que é mais um daqueles nomes que não vale a pena descobrir. Acabadas as performances na piscina, o festivaleiro teve que ir preparar-se para a noite que aí vinha que contava com Valient Thorr e Electric Wizard, mas antes de ir ao parque de campismo que era o Parque da Cidade de Barcelos que não tinha qualquer coisa a apontar de negativo a não ser o pseudo Galo de Barcelos, que muitos diziam ser um Faisão, que começava a cantar pelas 3h da manhã e que por acaso dificultavam um pouco o sono de uma pessoa, fomos ao recinto do Milhões e dirigimo-nos ao concerto dos Plus Ultra que até foi jeitosinho. Depois deste concerto vinham os meus conhecidos The Glockenwise. Não esperava outra coisa senão um bom concerto e de facto não tive necessidade de fazer queixa. A banda soube dar um grande concerto para os poucos que estavam lá a assistir (por coincidir com a hora de jantar) mesmo com problemas que teimavam em aparecer. Jacks que se desprendiam, cordas que partiam. Coisas que acontecem aos melhores e que só provam que os Glockenwise já não têm estatura para palco pequenos. Deêm-lhes oportunidades, eles são o futuro.Só depois disto é que se foi ao banhinho, mudar de roupa, jantar para se preparar para ver Men Eater, Black Bombaim, Valient Thorr e Electric Wizard. Acontece que por ironias do destino, todos estes concertos acabaram por ser perdidos, juntando-se à lista da piscina do dia 23. Perderam-se estes concertos mas não se perdeu o melhor - ainda havia after-hours para estoirar as calorias. Chegados ao Palco Vice estava a tocar Tony From Eustachian. Nunca tive tanta vontade de desaparecer dum concerto. Tony era uma espécie de gigabit-power-metal-beatcore que me estava a arruinar a cabeça. Só dando 2 a 3 linhas de cocaína e tomar uma dezena de speeds é que alguém conseguiria (pensar) dançar e acompanhar isto. O que vale é que depois disto veio o momento do dia, Captain Ahab. A dulpa da California apresentou-se em palco com o seu DJ corrente mais a outra metade cujo único objectivo era ficar cada vez mais nú à medida que o concerto ia progredindo para fim. Tocou-se Girls Gone Wild, I Don't Have A Dick, U Want Me, How 2 Party e foi a melhor festa da noite. Estando simplesmente sóbrio (pudera, com finos a 1,5€) neste concerto parecia que estava sobre o efeito de ácidos. Simplesmente um poderio enorme! Seguia-se Sickboy mas o cansaço da viagem ainda pesava e então foi decidido por unanimidade ir dormir ainda a cantarolar o fim do grande concerto de Captain Ahab - "I fuck them: bitches, bitches! I fuck them: hoes, hoes!"

Expressão do dia: «Consagração»


Dia 2: Começa um novo dia e desta vez sim, tinhamos oportunidade para ver todos os concertos do dia menos aqueles que sobrepunham. Sabe-se lá porquê, os Lululemon trocaram o horário com os Throes e estes passaram para as 15h no palco da piscina. Sendo Throes um nome que eu queria muito ver, muito graças ao Dirty Glitter EP editado pela Lovers & Lollypops (organizadora do festival), lá tive que ir dar uns mergulhinhos e ouvir esta dupla que apenas usa bateria e guitarra. Surpresa do dia, foi espectacular. Com um cenário atrás de palmeiras que suscitou algumas comparações com outros grandes festivais mundiais, os Throes acabaram por dar um bonito concerto. Pequeno, mas eficaz. É um nome a ter em conta, eu ainda vou falar com eles para se estrearem no distrito da Guarda. Como esperado, depois disto tivemos Lululemon também em formato bateria-guitarra. Naturais de Vale de Cambra os Lululemon também não se mostraram enferrujados e foi outro nome que me surpreendeu. Mais porque eu nunca tinha tido a oportunidade de os ouvir. Mas não conseguiram superar o concerto de Throes. O fim de tarde na piscina de dia 24 foi maravilhoso: Marçal dos Campos com as suas teclas a lembrarem Kraftwerk menos kraut e mais chill; e a dupla oriunda de Coimbra, Os Yeah (Hugo Alfredo Gomes & Emanuel Botelho = wools + quit) juntaram-se a Fabulosa Marquise e proporcionaram belos momentos aquáticos a ouvir Sun de Caribou e Feel It All de Washed Out. Quem me dera a mim que todos os fins de tarde fossem assim. Saídos já tarde deste canto dos deuses e também já perdido o concerto dos Aspen que jogavam em casa, decidimos ir dar uma vista de olhos aos bracarenses Long Way To Alaska que tiveram um espectáculo dentro das normas não excendendo em muito a espectativa. Sair do recinto e voltar a entrar no recinto e fomos direitinhos a PAUS que estavam a fazer o soundcheck. Com a plateia bem constituida como não tinha visto antes, os PAUS eram certamente a banda portuguesa que mais pessoas queriam ver. Pudera, com artistas de Linda Martini, Men Eater, Riding Pânico, If Lucy Fell e Vicius Five, só podia sair coisa boa. Para quem nunca tinha visto foi uma coisa que parecia o fim do mundo. Para mim que já os estava a ver pela 2ª vez (e a 3ª já está agendada para 11 de Setembro!) não houve efeito surpresa. Tocaram 5 músicas. As 4 do EP É Uma Água mais uma a entrar no alinhamento do novo álbum ainda a nomear e a sair até ao fim do ano. Depois do concerto que vi na Discoteca Via Latina em Coimbra, senti a banda enferrujada. Não sei se era do Verão ou não, mas passava-se alguma coisa. A nível de percursão, exímios. Agora em termos vocais, muito fraquinhos. Até me fica mal dizer isto mas parecia muito amador. Se algum dos quatro cantava baixo de mais, os outros iam atrás e isto no fim resultou em pujança nível zero. Foi um bom concerto que acabou mesmo em grande mas só quem não tinha visto isto antes é que não é ofuscado pelo brilho da banda pertencente aos quadros da Enchufada. Depois disto seguiu-se The Fall mas aproveitou-se para dar uma volta e beber um ou outro fino, isto é, quando a carteira assim o deixava, até que dava ínicio o concerto de Gold Panda no Palco Vice. Isto sim valeu a pena e tornou-se num dos melhores concertos do Milhões de Festa de 2010 que a esta hora já se sentia épico. Passamos para El Guincho no Palco Milhões e depois de na Queima das Fitas de Coimbra ter chegado só a tempo de ver a última música, podia agora ter a minha vingança. Acontece que não tive. Queria muito ter gostado do concerto mas era excessivamente repetitivo. Até que à última música estoira a Antillas e aí sim, pude ter a minha mini-vingança podendo ter acesso a esta mega brutalidade de música que teve direito a uma extended-version para fazer escorrer mais suor. Fechado o Palco Milhões, voltamos ao Palco Vice onde agora ia dar ínico o concerto dos CRISIS. O cansaço voltou a dar que falar e acabamos por ver apenas 3 músicas das quais uma cover à Crystalized dos The XX que diga-se de passagem, era absolutamente dispensável. Pelo meio ainda tivemos a oportunidade de ver a infeliz queda da Sofia no Palco mas felizmente não tinha sido nada de especial e passados poucos segundos já estava a transpor para o público o seu animal de palco (lembrava-me estupidamente de Peaches).

Expressão do dia: «Estou todo fodido»

Dia 3: Último dia. Tinha tudo passado tão depressa e não queriamos por nada ir embora. Piscina das 14h30min até às 17h45min e deu para ver Dreams - goste, Sunflare - nada a apontar, Tigre Deficiente - risoriamente bom a contar com uma versão electronica do bikini pequenino às bolinhas amarelas que era um mimo, The Shine - pffff, que dizer? Estavam mesmo fora do festival tal como Move The Crowd. Acontece que não sei o que é pior: se ter alguém que parece pertencer à Footmovin' ou alguém que parece uns irmãos abandonados de Buraka Som Sistema. Não vimos andamento porque os Riding Pânico já iam começar às 18h no Palco Vice. Acontece que por grande estupidez, fomos até ao recinto mas não fomos até ao palco alternativo, ficamos no principal à espra dos Riding Pânico. Esperamos um pouco, nunca mais vinham, (e claro que nunca iriam chegar, até agora lá podiamos estar à espera deles) fomos jantar. Que estupidez. Cumprir o ritual pós-piscina e ir passar um pouco de tempo ao recinto vendo Karma To Burn que por acaso nem era um nome que me chamava à atenção mas deram um concerto bem interessante. Fomos agarrar uns finos quando pude reparar no aviso da organização que dizia que os Monotonix iam passar para o concerto das 23h e os Za! iriam então passar para as 0h45min. Eu já pressentia algo de épico, mas não quis criar grandes expectativas. Fomos então para o concerto dos Monotonix e não tinhamos sequer ideia do que se ia passar. Chegada a hora foi possivel constatar que pela enésima vez na história da banda isrealita, recusaram tocar no palco. A bateria foi colocada exactamente à frente do palco e depois das grandes - sim, mesmo no meio da multidão. O concerto estava na fase inicial e tinhamos o guitarrista a dar notas soltas e bem separadas enquanto que o vocalista Ami Shalev a abrir um corredor no meio da multidão onde ia roubando água, cerveja e outras bebidas para poder atirá-las para cima do baterista que estava deitado no chão de braços e pernas abertas para poder receber a benção deste homem. Acabada esta cena inicial começou o inferno. Moche e crowd surf (posso confirmar que sim, foi Nuno Rodrigues dos The Glockenwise o catalisador desta festa descomunal em crowd surf) que só parava quando já não havia música. Posso afirmar sem qualquer medo que houve mais de 100 crowd surfers que esmurravam joelhos, pontapeavam alguém e sabe se lá porquê, caiam ao chão completamente desamparados. A visão era demoníaca e até aqui tudo bem. Porque o melhor ainda estava para vir. Quem conhece os Monotonix, supostamente também conhece a sua aversão a ter a bateria instalada no mesmo tempo durante mais que 15min. Ami Shalev teve a brilhante ideia de roubar o bombo e o banco ao baterista e levá-los para o meio da multidão. Pediu para elevarem estes objectos para ele se sentar no banco e tocar no bombo tendo uma das maiores interacções que uma banda alguma vez teve em Portugal. Esta cena visualizada já valia "Milhões", mas esperem que o melhor ainda estava para vir. O frontman da banda analisou o espaço que tinha para dar o concerto e avistou uma subida que saia de trás dos balcões de bebida que culminaria num precepicio de 8 metros. Mais uma vez, mudou-se a bateria, desta vez na sua totalidade, para o cimo dessa subida o concerto passou a ter lugar nesse mesmo sitio. Uma vez estando neste lugar, já tudo parecia óbvio - Ami Shalev queria atirar-se duma altura considerável para a multidão que certamente o receberia de braços abertos. E assim o fez, mas a organização pediu expressamente para descer mais um pouco na rampa e só caiu nos braços desesperados dos fãs depois de se lançar numa altura de 3 metros enquanto o baterista fazia uma heartbeat mesmo à reality show. Ele saltou e esse momento acabou por ser a marca do Milhões de Festa 2010. É caso para dizer Were Where You When It Happened? Depois disto, o festival devia mesmo ter acabado. Nada puderia ter suplantado aquela que foi a melhor performance de sempre alguma vez feita em Portugal! Mesmo que a qualidade musical dos Monotonix ronde a nulidade, o espectáculo esteve lá. O suor ficou lá e um pouco de nós ficou também naquele pequeno largo em frente ao Palco Vice. A brutalidade tinha-nos atingido e depois disto nem sabiamos o que esperar. Mas lá tivemos que prosseguir viagem (mas ainda deu para uma troca de palavras com Ami Shalev!) e fomos ver Toro Y Moi que depois do que tinhamos visto antes iria sempre saber a pouco. Foi um bom concerto, para não dizer mesmo bom mas que ainda estava a ser visto de cabeça quente. Acreditem, só quem lá esteve é que sabe o que se passou. Não há videos, fotos ou qualquer outra coisa que mostre a intensidade daquilo que se passou. Depois de Toro Y Moi, veio Za! naquele espaço que há 1h atrás se tinha tornado mítico e veio talvez o 2º melhor espectáculo da noite com momentos à capella, jazz fusion e breaks geniais por parte da banda de Barcelona. Já o corpo pedia descanso e ainda havia 2 grandes nomes vindos de nuestros hermanos para ver: Delorean e Crystal Fighters. Delorean foi genial e mais não posso dizer. Crystal Fighters foi também genial mas não conseguiu nenhum destes ultrapassar os concertos de Captain Ahab, Za! e claro, Monotonix. Havia mais dois nomes nesse dia no after-hours, mas o festival tinha acabado para mim quando os Crystal Fighters terminaram.

Expressão do dia: «Já viste que hoje é o último dia?»

O Milhões de Festa de 2010 foi extremamente bom. Se tivesse visto todos os concertos que me chamaram lá, poderia até ter sido ainda melhor. Óptimas condições, óptimo ambiente e uma coisa que já não se vê nos dias de hoje. Tive Os Yeah! a acampar perto de mim e consegui ter algumas trocas de palavras com uma metade deles, e tanto os PAUS, como os Captain Ahab, Sickboy, Toro Y Moi entre outros estavam na piscina sem qualquer problema. Neste festival não havia endeusamento de nenhum artista. Todos partilhávamos o mesmo espaço, eramos todos pessoas com habilidades diferentes. E isso meus amigos, isso não se paga. Posso vir a arrepender-me de dizer isto, mas o Milhões de Festa de 2010 vai ficar para a história do MdF como a edição de 2005 de Paredes de Coura ficou para a história desse mesmo festival. 2010 foi o ano da consagração.

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